
A presença feminina no mercado de trabalho e em posições de liderança avançou nos últimos anos, mas ainda convive com desigualdades que afetam a trajetória profissional. Dados da primeira pesquisa nacional do Observatório da Mulher Profissional de Administração, iniciativa do Conselho Federal de Administração (CFA), mostram a dimensão desses desafios entre mulheres que atuam na área. O levantamento recebeu 2.073 respostas e, após a exclusão de nove participantes que não possuíam registro no Conselho Regional de Administração, chegou à amostra final de 2.064 mulheres profissionais de Administração, de diferentes regiões do país. A coleta foi realizada entre julho e outubro de 2024.
Os resultados mostram que qualificação e experiência não eliminam, por si só, as barreiras encontradas no ambiente profissional. 64,92% das entrevistadas afirmaram já ter enfrentado dificuldades no trabalho por serem mulheres, enquanto 53,92% disseram ter sofrido assédio em razão do gênero. Em relação à liderança, 92,54% percebem diferenças no tratamento entre homens e mulheres que ocupam posições de comando. Ao mesmo tempo, os dados sobre formação acadêmica mostram um grupo altamente qualificado: 59,01% possuem pós-graduação ou MBA, 12,55% têm mestrado e 3,73% concluíram doutorado. Ainda assim, a falta de reconhecimento por parte das empresas foi apontada por 30,77% das participantes como uma dificuldade, e 17,96% mencionaram a discriminação por serem mulheres.
Entre a carreira e a vida
A pesquisa também chama atenção para uma dimensão que ultrapassa o ambiente de trabalho: a relação entre carreira e responsabilidades familiares. 58,38% das participantes possuem filhos e, para 27,89%, equilibrar trabalho e família exige um esforço significativo. Em 16,41% dos casos, as responsabilidades domésticas impactaram diretamente a capacidade de dedicar tempo e energia ao crescimento profissional. Além disso, 10,67% afirmaram já ter colocado a carreira em segundo plano por demandas familiares e 8,22% chegaram a deixar o emprego para cuidar da família.
Os números ajudam a compreender como a chamada cultura do cuidado pode interferir nas oportunidades profissionais. A distribuição desigual das responsabilidades domésticas pode afetar a disponibilidade para estudar, participar de redes de relacionamento, assumir novas funções ou buscar posições de liderança. É nesse contexto que se insere a avaliação de Adm. Andréa Oliveira Rezende Antinoro, coordenadora do Observatório da Mulher Profissional de Administração e diretora de Relações Institucionais do CRA-DF: “Ainda carregamos a cultura do cuidado, onde a sociedade ainda entende que apenas a mulher é responsável em cuidar da vida doméstica e quase não sobra nada de tempo para a sua própria vida.”
A barreira não está apenas no currículo
As dificuldades identificadas pela pesquisa também estão relacionadas à cultura das próprias organizações. Entre as barreiras à ascensão profissional, 38,32% das entrevistadas apontaram uma cultura organizacional que não valoriza a mulher, 27,17% citaram a falta de apoio das lideranças e 12,87% mencionaram a dificuldade de acesso a redes de relacionamento profissional. Os dados ajudam a explicar por que a formação acadêmica, embora importante, não é suficiente para garantir igualdade de oportunidades.
A pesquisa também aponta para a percepção de um “teto invisível”. Oportunidades podem existir formalmente, mas o acesso real às posições de maior responsabilidade ainda é percebido como desigual. A barreira nem sempre está explícita em um processo seletivo ou em uma descrição de cargo. Em muitos casos, ela aparece nas relações profissionais, na cultura organizacional, no reconhecimento e nas oportunidades oferecidas ao longo da carreira.
O que esses dados dizem sobre o Agosto Lilás
A discussão proposta pelo Agosto Lilás, tradicionalmente associada à prevenção e ao enfrentamento da violência contra a mulher, também pode ser ampliada a partir desses dados. O ambiente profissional é parte da vida de milhões de mulheres. É nele que elas constroem carreiras, ocupam posições de liderança, participam de decisões e desenvolvem sua autonomia. Por isso, falar sobre respeito, segurança e enfrentamento ao assédio também significa discutir a forma como as organizações são administradas.
Políticas internas, relações de liderança, canais de escuta, mecanismos de enfrentamento ao assédio, critérios de reconhecimento e oportunidades de desenvolvimento profissional fazem parte da gestão e produzem efeitos concretos sobre a experiência de quem trabalha. Para o CRA-DF, trazer os dados do Observatório para a discussão durante o Agosto Lilás é uma forma de reforçar que o enfrentamento às desigualdades também passa pelos espaços profissionais e pelas decisões tomadas dentro das organizações.
Mais do que perguntar quantas mulheres ocupam determinados espaços, os dados convidam a olhar para as condições encontradas por elas nesses lugares. Uma gestão comprometida com pessoas precisa considerar essas condições e reconhecer que criar oportunidades também significa garantir ambientes em que elas possam ser exercidas com respeito, segurança e igualdade.
O Observatório da Mulher Profissional de Administração contribui justamente para tornar essa realidade mais visível. Ao reunir informações sobre carreira, liderança, reconhecimento profissional, relações de trabalho e responsabilidades familiares, a iniciativa cria uma base para compreender os obstáculos enfrentados pelas mulheres na Administração brasileira e para pensar em ações capazes de transformar essas experiências.
No fim, os números não contam apenas uma história sobre mulheres. Eles também colocam uma pergunta para quem administra: que tipo de ambiente estamos construindo para que essas profissionais possam crescer?
Gestão também é cuidado. E informação é um dos primeiros passos para transformar aquilo que muitas mulheres vivem em uma realidade que as organizações precisam enxergar.
Saiba mais sobre o Observatório da Mulher Profissional de Administração
A pesquisa completa está disponível no site do Conselho Federal de Administração.
Fonte: Conselho Federal de Administração (CFA) | Observatório da Mulher Profissional de Administração.